sexta-feira, 9 de setembro de 2011

VIDA E MORTE SEVERINA



Nos idos anos 70, quando as vítimas da prostituição geralmente eram mulheres muito pobres e de pouca beleza ou nenhuma, que vendiam os corpos para sobreviver ou alimentar os filhos de pais que não assumiam, e que as mesmas não tinham amparo nenhum da lei ou do poder governamental, Severina Branca,foi uma das pioneiras da prostituição em São José do Egito (Pe).E foi pra ela que fiz essa singela homenagem...

VIDA E MORTE SEVERINA
(Welton Melo)

Meu nome pouco se lembram
nem eu mesma pra ser franca
a anos sou conhecida
só por Severina Branca
fui uma mulher astuta
poetisa, prostituta...
que tive o mundo a meus pés
mas aproveitar não pude
pois perdi minha juventude
na porta dos cabarés

eu hoje só sou lembrada
pelo que fui no passado
de Branca só tenho o nome
pois o meu corpo é manchado.
apesar da alma pura
minha história é uma mistura
de dor,amargura e drama
sou uma mulher sofrida
que pra ter algo na vida
vendia o corpo na cama

tenho duas Severina
na minha alma incompleta
a Severina rampeira
e a Severina poeta
da rampeira o que me resta
é um passado de festa
e um presente de lamentos,
da poeta o que achei
foi um mote* que criei
com base em meus sofrimentos

mote esse tão bonito
muito mais belo que eu
do mote o povo se lembram,
de mim o povo esqueceu
hoje vivo abandonada
e numa fria calçada
a solidão me consola
cumprindo esta triste sina
pernoitando em cada esquina
bebendo e pedindo esmola


mas talvez com minha morte
o berço da poesia
me encham de homenagens
cobertas de hipocrisia
me levem pra um auditório
e lotem o meu velório
com gente de classe fina
gente tal que eu nem conheço
chorando,fingindo apreço
e falando de Severina

Gente essa que ao me verem
pela rua embriagada
repudiavam meus atos
e mudavam de calçada
mas depois de falecida
um rapaz na despedida
beija o caixão com desgosto
mas que tanta hipocrisia
pois toda vez que me via
passava e virava o rosto

e como os demais poetas
também serei esquecida
citada nos festivais
quem sabe uma vez perdida
eu que com vida fui nada
com a morte serei lembrada
e talvez o povo nem note
que a capital da poesia
só vai me lembrar um dia
na hora que ouvir meu mote

talvez de mim façam um busto
e coloquem na cidade
com os letreiros dizendo:
“PARTIU MAS DEIXOU SAUDADE”
e com falsidade suposta
minha foto será posta
nos bares que tomei porre
o mundo é tão sedutor
e o povo só dão valor
a alguém depois que morre.

3 comentários:

  1. Ivan Sérgio

    Sem pensar duas vezes afirmo:
    ENTRE OS SEUS TRÊS MELHORES TRABALHOS!!!
    Parabéns poeta.

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  2. Idem ao que o Ivan falou...
    magnifico compadre Welton!

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  3. Muito , muito booom :]

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Quem sou eu

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Sou mais um que nesta terra de poetas não sei se sou Poeta ou Louco,mas depois de ter me banhado nesse rio de versos posso afirmar com toda certeza que nem todo louco é poeta mas que todo poeta é completamente louco; Loucura essa que o faz ver a vida com outros olhos. Dêem Viva o Verso! Visitem meu blog: vivaoverso.blogspot.com